Aprendizados




Há um pouco mais de seis anos, quando papai morreu, tive um baque terrível e senti “na pele” que as pessoas tão próximas e queridas não são imortais (muito menos não são sempre fortes, sempre saudáveis e que nossos exemplos infantis também possuem suas vulnerabilidades). Foi um aprendizado dolorido!

Desde então, nos meus mais profundos sentimentos, tinha um receio... receio não!... tinha medo do que podia vir a acontecer com mamãe. 

O tempo passou e meu medo se tornou realidade: minha mãe sempre querida adoeceu e “sem pedir licença” também se foi.

Foram dias difíceis para todos que cercavam a “Dona Dalva”. O câncer, até então não confirmado, deixou mamãe muito debilitada e, infelizmente, sem forças para resistir a uma pequena cirurgia para retirada de um nódulo e posterior biopsia. 

Felizmente, meu anjinho da guarda me fez viajar em cima da hora para estar com minha mãe em suas últimas horas. 

Lembro, claramente, quando mamãe chegou no quarto e, ao me ver lá no hospital esperando por ela, deixou cair uma lágrima. Ainda, brinquei com ela: “Uai, Dona Dalva, a senhora achou que eu não estaria aqui para ficar com a senhora? Bem capaz!” Logo depois da cirurgia, mostrei para mamãe as fotos mais recentes de suas netas, da nossa nova casa que ela ainda não havia tido oportunidade de conhecer. Conversei sobre assuntos amenos, mesmo eu estando tão angustiada. Sem saber, foram os últimos momentos em que eu estive com ela consciente ao meu lado.

Os três dias seguintes foram difíceis: mamãe lutando contra as sondas; conversas sem sentido - e daí nova lembrança de algumas raras “conversas” - (1) mamãe brigando comigo: “ai, ai, ai, Amanda!”; (2) um pedido: “deixa eu morrer” (horrível ouvir isso de sua mãe, mesmo sabendo que ela não estava totalmente consciente); a médica alertando sobre o perigo de uma parada cardíaca a qualquer momento; a angústia pela espera por uma vaga na UTI... Momentos difíceis e novo aprendizado sofrido! As pessoas que amamos também partem sem consentimento! 

No dia que mamãe partiu, ela já estava internada na UTI e, junto com uma das minhas irmãs, passamos alguns minutos com mamãe. O plantonista conversou conosco e o quadro, realmente, não era bom. Ali, tive uma conversa séria com a Dona Dalva. Ao pé do ouvido, tranquilizei-a, deixei claro que ela tinha cumprido muito bem o papel dela aqui na terra e que, se fosse o melhor para ela, nós daqui ficaríamos muito tristes, mas ela poderia descansar em paz. Era o meu adeus. Saí do hospital, simplesmente, arrasada e com a nítida impressão de que mamãe não estava mais conosco. E, morrendo de raiva de mim mesma, por acreditar nisso. Graças a Deus, meu marido estava por perto para me dar o apoio e o abraço que eu precisava naquele momento.

À noite, quando liguei para saber do quadro médico, o atendente me disse que o nome dela não estava na lista dos internados, Nova aflição! Aguardei eternos minutos para receber uma ligação da enfermeira chefe com a informação de que mamãe tinha falecido.

Pronto! Aí a situação complicou! Uma confusão de sentimentos se instalou em mim: tristeza, saudade, impotência e, apesar de tudo, a certeza de que minha estrela Dalva estaria (está) em um lugar muito melhor e em uma condição muito mais feliz. Uma mistura de sentimentos, razão e fé que, confesso, nem sempre estavam em sintonia. E até hoje estou assim: um pouco desorientada. 

Para aliviar minha dor, resolvi usar a estrelinha do céu, para simbolizar a presença de mamãe. E muitas noites me pego procurando pela estrela d’Alva, na tentativa de confortar meu coração. 

Sei que mamãe está por perto. Mas saber que não terei mais seu colinho (que eu ganhava nas férias ou em nossos encontros) não é nada bom. 

Três meses se passaram e ainda não “tô de boa”. Minhas lindas pequenas já sabem, quando me pegam chorando, que a saudade da “vovó Dadá” está batendo.  

É estranho como uma ausência pode ocupar um espaço tão grande em minha vida...


Mãe, “te amo” para sempre (mesmo quando não te vejo no céu).

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